Aulas remotas para crianças com deficiência intelectual

As aulas virtuais se transformaram numa nova forma de aprendizagem durante a quarentena, o que não quer dizer que seja bom, apenas que precisamos também nos adequar e aprender a melhor forma de fazer isso. Esse modelo destacou pontos importantes que o educador e os pais precisam ficar atentos para que o aluno consiga acompanhar e não fique frustrado por não acompanhar as aulas. Dependendo da duração da aula, da maneira como o professor conduz, do tipo de atividade proposta, da quantidade de alunos participando, o aprendizado da criança pode sofrer menor ou maior dificuldade, tenha ela deficiência ou não. Na verdade, qualquer questão emocional e/ou psicológica interfere em seu aprendizado, destacando-se ainda mais no modelo de ensino virtual.


Por essa razão, é muito importante que você observe se seu filho ou aluno está de fato acompanhando a explicação, se está respondendo às atividades propostas, se consegue se concentrar na aula, se não está mexendo em outras inúmeras coisas legais que o computador chama, distraindo-se com facilidade. Meu filho mais novo, com 10 anos, que não tem deficiência, me chamou a atenção quanto à saúde emocional nesse momento de quarentena e estudos virtuais. Acompanhando seus estudos, percebi que não podemos nunca concluir precipitadamente que desatenção ou dificuldade em acompanhar a aula, seja preguiça, esse seria o caminho mais curto e fácil, tirando a responsabilidade do adulto em descobrir a dificuldade da criança e ajudá-la efetivamente.


As aulas virtuais exigem do aluno maior concentração e atenção para acompanhar a fala do professor e o conteúdo da aula. Temos menos distrações que uma aula presencial teria, seja falando com seu colega ao lado, ou observando todos os seus colegas de sala; seu professor ali ensinando, ou mesmo, olhando para a janela. No recreio, ele interage socialmente, corre, brinca, ri… enquanto os intervalos da aula virtual, a criança em geral permanece na tela, apenas trocando para algo do seu interesse, na tv, no celular ou video game. Não tem interação social com seus colegas, não tem distrações.


No entanto, quando o professor fica individualmente com o aluno, focando no seu aprendizado, ele tende a prestar maior atenção. Em especial, os alunos com necessidades educacionais específicas precisam dessa atenção exclusiva, o mediador é essencial nesse processo. Do contrário, eles acompanharão menos ainda que no formato presencial.

Durante a quarentena tive a oportunidade de acompanhar bem de perto as aulas virtuais da minha filha, Clarice, que tem Síndrome de Down. a As orientações que compartilho abaixo podem também ser aproveitadas para crianças sem deficiência, que estejam apresentando dificuldades de aprendizagem devido ao estresse emocional e psicológico que esse momento gerou seja em crianças ou adultos.


  • Preferência por aulas individuais;

  • Duração bem menor que as aulas do grupo;

  • Confirmar se o aluno ouve bem, se a internet está falhando, dificultando o entendimento do aluno;

  • Fala do professor deve ser clara e objetiva;

  • Formatação da sua atividade: tamanho de letra maior que o padrão para texto (tam 14); tamanho de letra maior que o padrão para Título (tam 16); maior espaçamento entre as palavras (2 no mínimo) para melhor visualização das palavras; tipo de Fonte SEM serifa, preferir sempre as retas, como ARIAL, COMIC SANS, CALIBRI;

  • Aulas dinâmicas com músicas, imagens diversificadas, desenhos, vídeos (de até 3 minutos) ou mesmo materiais concretos que você tenha feito e mostre em sua aula.

  • Ao compartilhar sua tela, se deseja que o aluno siga sua leitura ou mesmo acompanhe a sequência da atividade proposta, selecione cada palavra enquanto lê, para que ele saiba onde está a sua leitura, seja de um enunciado pequeno ou texto maior. Especialmente, as crianças que não sabem ler, se perdem na leitura.

  • Utilize formas de direcionar a atenção da criança para cada atividade que ela irá fazer, enumerando, classificando com cores ou marcando. Por ex. fale “vamos agora fazer o exercício numero 1 ou letra a, ou exercício cor laranja.”

  • Aumentar a visualização (zoom) enquanto estiverem lendo, para facilitar seu acompanhamento;

  • Ao solicitar que a criança leia, lembre-se do quanto é dificil pra ela, da atenção que exige dela e do tempo maior que leva, antes de escolher o texto. Preferência à textos menores, com no máximo 2 parágrafos (preferência 1);

  • Da mesma forma, escolha exercícios com baixo nível de dificuldade. Só passe para exercícios que pedem maior atenção, quando perceber que o aluno mostra sinais de que pode avançar;

  • A criança com dificuldade de fala, mesmo sabendo a resposta, poderá muitas vezes, não conseguir falar claramente as respostas solicitadas. Ajude-a, escreva a resposta, peça para ela escrever ou, o que seria ainda melhor, faça múltipla escolha, leia as opções e peça para ela dizer qual das 2 está correta, a primeira ou a segunda? (atenção, não faça mais que 2 opções);

  • Jogos educativos em que a criança possa marcar a opção correta, com imagens para facilitar o entendimento da criança e com áudio descrição, serão ótimos para memorizar o conteúdo, de forma lúdica.

Ao solicitar trabalhos no word ou powerpoint durante suas aulas, atenção para:


- o tempo que ela levará para aprender a ferramenta solicitada;

- a coordenação motora da criança para uso do mouse;

- visão espacial do teclado, o tempo de digitação das letras. Eles têm dificuldade para memorizar a localização das letras no teclado, a cada vez que escrevem nova palavra, procuram novamente;

- a cada ação necessária, levam maior tempo para posicionar o mouse, mesmo a mais simples, como marcar um x, dentro do ( ).

- fazer 1 atividade por página, evitar separar a mesma atividade em 2 páginas para a criança não se perder subindo e descendo a página e considerando sua coordenação ao usar o mouse.

- Lembrando que em ações avançadas, como fazer pesquisas, selecionar imagens, formatar, salvar documento, a atenção e o tempo que o aluno levará para fazer será ainda maior. Em muitos casos, só será possível com o apoio do responsável ao lado.

Ao preparar suas aulas, busque QUALIDADE e não QUANTIDADE!

Alessandra Almeida

Clarice, durante aula virtual com sua mediadora.

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