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  • Alessandra Almeida
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PARA QUE ELA VEJA, EU PRECISO VER!

Desde que nasceu, Clarice me desafiou. Ela desafiou meu conhecimento, desafiou meus valores mais profundos, desafiou minhas raízes. Ela me destruiu para me reconstruir numa pessoa melhor. Antes dela, eu nada sabia sobre o mundo, sobre a vida e, principalmente, sobre mim mesma. A faculdade de Pedagogia não chegou nem perto de me preparar para recebê-la. A prática do trabalho voluntário desde adolescência em que exercitei o respeito ao outro e suas diferenças, não me preparou para recebê-la. As emoções que eu acreditava conhecer e de certa forma “dominar”, na verdade, sequer as conhecia. Clarice e sua Síndrome de Down, que também passou a ser minha, me apresentou um mundo, um ser humano que não fazia idéia existir. Minha mente se abriu, meu olhar para tudo o que estava ao redor e especialmente o que estava dentro de mim, também mudou. A complexidade e beleza do corpo humano tem hoje muito mais importância, assim como a saúde e a doença são sentidos profundamente; a humanidade, o presente e o futuro ganharam nova perspectiva; o relógio, que eu fazia questão de acelerar no dia-a-dia, percebi que os segundos também existem, estão ali correndo e devem ser aproveitados. A vida ganha assim mais valor, em toda e qualquer circunstância.


Certo dia, num desses momentos de reflexão, uma frase ficou em minha mente e nunca mais saiu: “Para que ela veja, eu preciso ver!”. Eu preciso sair do lugar comum, ter coragem de encarar os desafios, enfrentar os obstáculos, sair da minha zona de conforto. Do contrário, o medo tomará conta dos meus passos. Clarice movimentou as águas paradas do conhecimento e dos sentimentos, não apenas os meus, pois percebo que todos que se relacionam com a deficiência e seus desafios sejam na área da educação, das terapias, da medicina, das atividades esportivas, da sociedade em geral também são movimentados. O que os pais fizerem hoje para seus filhos será determinante para sua autonomia no futuro.


Preciso ver além dela, por ela e para ela, para que em breve, ela possa ver por ela mesma.



(Sou apaixonada por esse momento registrado. Era final de tarde, estávamos com alguns poucos amigos na praia vazia. Logo que chegamos, Clarice foi para a frente do mar com um pequeno brinquedo que faria bolhas de sabão (já sem o sabão) e com movimentos leves, suaves, falando baixinho (do jeito que só ela saberia o que estava falando), esqueceu tudo ao seu redor e ficou muito tempo ali. Ela, o mar e o sabão imaginário. Fico muito emocionada ainda hoje por me lembrar desse momento. Que bom que meus olhos não perderam esse bela “fotografia”, uma verdadeira poesia.)

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